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A INTEGRAÇÃO ESG: ENVIRONMENTAL, SOCIAL & GOVERNANCE

A criação da Securities Exchange Commission (SEC), em 1934 foi consequência da crise de confiança posterior ao crash da Bolsa de Valores em 1929 e da depressão econômica da década de 30 do século XX. É interessante ver, que a base da criação da SEC está no princípio de que “Companhias que ofertem títulos de valores mobiliários para investimentos em dólar devem dizer a verdade sobre seus negócios, sobre os títulos que estão ofertando e os riscos envolvidos no investimento”.

Benjamim Graham, o precursor da análise fundamentalista, ainda na época da depressão, além de valorizar as informações empresariais de resultado e o comportamento dos preços no mercado, já se preocupava com a materialidade dos princípios sólidos de gestão e governança, atribuindo importância às ações ON. No campo da economia, Arthur Pigou, bem antes, defendia a cobrança de um imposto, a “taxa Pigou”, para correção das externalidades negativas provenientes da atividade econômica (Wealth and Welfare, 1912).

De um modo geral, a evolução no campo da economia e do mercado de capitais conviveu com alertas acadêmicos ou de natureza social sobre a geração das externalidades negativas. Ao mesmo tempo em que as teorias quantitativas predominavam no ambiente econômico e a teoria do crescimento transformava-se em um quase axioma do comportamento econômico, surgiam outros alertas, em contra ponto, que marcaram o comportamento econômico e social dos últimos 50 anos. Como exemplo, lembramos Nicholas Georgescu-Roegen pelo seu combate ao desenvolvimento teórico da economia baseado no crescimento. Na área ambiental destacamos o Relatório “Limites do Crescimento” encomendado pelo Clube de Roma a uma equipe de cientistas do MIT chefiada por Dana Meadows.

Se Markowitz, Miller e Sharpe ganharam o Prêmio Nobel em 1990, por suas importantes contribuições para o ambiente da análise quantitativa e para a teoria moderna das finanças, no ano seguinte, Ronald Coase foi agraciado com o Prêmio Nobel pelas suas contribuições para a Teoria da Firma e pelo Teorema de Coase, que procurava resolver o problema de geração de externalidades, reconhecendo que no âmbito microeconômico, as empresas são parte do problema e podem contribuir criando soluções negociadas sem interferências do Estado.

O “ponto” do crescimento e geração de renda e o contra ponto das externalidades sociais e ambientais.

Mudanças de paradigmas para o século XXI
O jogo geopolítico se complicou e o mundo ideal da economia no campo financeiro começou a ser visto sob uma nova realidade. Questões sobre a emergência dos países do lado oriental, pedindo passagem, junto com um protagonismo amplo em torno das questões ambientais e dos direitos humanos iniciavam a sua trajetória, que está mostrando ser um caminho sem volta.

Em 1992, no âmbito da “Rio 92”, foi convocado um fórum com líderes empresariais que elaboraram a publicação “Changing Course”, que defendeu a tese da “ação livre dos mercados integrado ao princípio do poluidor pagador”, resgatando o princípio da Taxa Pigou, 80 anos depois. Esse mesmo Fórum se transformou no World Business Council for Sustainable Development” – WBCSD, cujo representante no Brasil é o CEBDS.

O conceito Triple Bottom Line (TBL), também chamado de 3P (People, Profit and Planet) formulado pelo sociólogo John Elkington, propõe uma parceria do Lucro que tem com Pessoas e Planeta, na visão de sustentabilidade empresarial. A partir dessa concepção, foi inspirada a criação do Global Reporting Initiative, em 1997, com uma visão multi-stakeholder, para a criação de novos padrões de relato de informações e indicadores para relatórios de sustentabilidade.

Em meio a intensos debates sobre o Clima, foi criado o Carbon Disclosure Program (CDP), criado no ano 2000, por uma iniciativa de investidores institucionais, com o objetivo de estimular os emissores de Gases Efeito Estufa a medirem seus impactos sobre o meio ambiente - pressão sobre a poluição atmosférica, águas, florestas e mudanças do clima, etc.

Depois de muitas expectativas e decepções, em mais de 20 anos, renasce a esperança de resultados “concretos” na Conferência do Clima em Paris (COP 21), em que não se descarta, além das metas de redução por país, a instituição de um preço de referência para o carbono.

A Carta Aberta dos empresários, apresentada no “Fórum Clima” organizado pelo Instituto Ethos recentemente, tem como uma das propostas dos empresários: “Considerar a precificação de carbono e opções que promovam a redução das emissões de GEE nas decisões de investimentos”.

O fato é que as varáveis do clima devem ser acompanhadas por analistas e investidores, pois será uma variável relevante no CAPEX e OPEX, em especial para as empresas industriais, futuro próximo.

A Governança Corporativa vem tendo um papel decisivo para dar mais solidez ao conceito ESG (Environmental, Social & Governance) - na integração à economia da empresa. A BM&FBOVESPA teve muita importância para nesse processo, pelo desenvolvimento dos segmentos de Novo Mercado e os Níveis 1 e 2 de Governança e na criação do ISE, em 2005, que criou um processo dinâmico e rigoroso de seleção de empresas para o índice.

Em nova etapa do protagonismo dos investidores institucionais globais, o United Nations Principle of Responsible Investments (PRI) foi constituído, em 2006, para difundir princípios baseados na Integração ESG à economia das empresas. O “Princípio 1” estabelece especificamente que “os investidores institucionais irão incorporar questões ESG na análise de investimento e processos decisórios”. Esses segmentos de investidores têm expressiva representação no mercado de capitais global, com ativos da ordem de PRI atualmente US$ 59 trilhões.

Entre outras instituições agregadoras de interesses de investidores e profissionais de investimentos, destacamos a European Federation of Financial Analysts Societies – EFFAS, que criou a sigla TESGIA – Taking ESG into Account”, contribuindo para o desenvolvimento de modelos de análise que levam em consideração a integração ESG, dando valiosa contribuição para o Valuation ESG, sendo muitos projetos parceiros do PRI. O EFFAS tem desenvolvido os Indicadores Chave de Performance para a Análise de Investimentos.

As políticas de investimentos estão incluindo novas referências de investimentos, que vão além do retorno de investimento e estrutura de capital. Para esses investidores de longo prazo com visão intergeracional, o valor justo não perde a importância, mas a sua centralidade.

Relato Integrado vai exigir uma ampla interação entre analistas e investidores com as empresas na discussão da representatividade dos seis capitais (capitais: natural, produto manufaturado, intelectual, humano, social e de relacionamento, financeiro) que devem apresentar estratégias e resultados com relação à contribuição desses capitais para a geração de valor e auto regulação de suas externalidades.

Questões como direitos humanos, políticas de águas, emissão de resíduos, direitos humanos, natureza do produto, combate à poluição, eficiência energética, padrões de governança, compromisso com a transparência, combate à corrupção têm sido destacadas.

Os paradigmas de análise e decisão de investimentos devem, assim, se adequar a essa nova realidade em desenvolvimento. Os interesses vêm se diferenciando trazendo à tona novas questões materiais sejam de caráter quantitativo ou não.

A nova análise Top Down estará integrando questões além das Tendências e Comportamento Macroeconômico e Setorial, integrando as Macro Tendências de comportamento demográfico, social e ambiental.

Na nova visão Bottom Up, os ajustes no fator risco que compõe o custo de capital são demandas de Fundos de Pensão e Gestores de Ativos, pela avaliação do comportamento dos fatores ESG, seja por fundamentos quantitativos ou qualitativos de scoring.

Há necessidade de as informações ESG serem tratadas com mais profundidade nos Relatórios Anuais das companhias no sentido de indicar as iniciativas de integração, valorizando as boas práticas, criando métricas e guidance, sempre que possível, mas reconhecendo os passivos de toda ordem, quantitativos e qualitativos relacionados aos princípios de sustentabilidade. Esse é o importante papel do pilar da Governança com a desejada transparência na prestação de contas.

A questão material para investidores HTF continuará sendo o material, o spread de curtíssimo prazo, os investidores em futuros continuarão a se basear em expectativas, os investidores em valor continuarão a existir olhando para descontos em relação ao preço justo. Os investidores de longo prazo estarão, entretanto, condicionando as recomendações de valor a novas políticas de investimentos de princípios de exclusão (geralmente baseados na natureza do produto ou questões éticas) ou de boas práticas empresariais.

De fato, “o mundo da análise de investimentos extrapolando as fronteiras do fluxo de caixa descontado” como citou Alexandre Póvoa em seu livro Valuation, só que a “verdade da SEC” sobre esse mundo ainda tem muito por ser explorada. Para tal teremos de lidar inevitavelmente com modelos de inferências menos quantitativas e com mais premissas qualitativas e de valor ético.

O grande desafio, de fato, será criar uma base de comunicação entre analistas, profissionais de investimento, relações com investidores e sustentabilidade que foque no aprendizado mútuo e na compreensão de que estamos falando não mais para um único conceito de investidor, mas de vários segmentos de investidores com interesses diferenciados, cada vez mais baseados na integração ESG.

Escreveremos mais sobre as questões levantadas, com mais profundidade, em próximas edições.


Eduardo Werneck
é diretor de Educação e Sustentabilidade da Apimec; representante da Apimec nos Conselho Consultivo de Educação da CVM, no Carbon Disclosure Project (CDP), no Conselho Orientador dos Indicadores Ethos, e no Grupo de Investidores da Comissão Brasileira do Relato Integrado.
eduardo.werneck@apimec.com.br


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